
Felizmente não testemunhei mortes. Mas vi crianças, idosos, mulheres, homens e adolescentes queimados, machucados, mutilados. Um rapaz de 18 anos perdeu o olho direito. Um senhora de 63 anos teve traumatismo na mandíbula. Vi crianças de 13 anos sem luvas correndo atrás das espadas e uma delas teve o punho aberto em ferida por conta da brincadeira de mau gosto. Relatei tudo isso em reportagens pelo jornal A Tarde.
O motivo de voltar ao assunto aqui veio de comentários de alguns leitores sobre a minha matéria "Guerra de espadas deixa mais de 160 feridos em Cruz das Almas". Um leitor se identificando como Pedro considerou a reportagem "infeliz, só destacando o lado negativo". "A espada é uma manifestação do povo", argumentou. Outra leitora, de nome Luciana Fraga, condenou: "Muito infeliz a forma jornalística como foi conduzida esta reportagem, tendenciosa, preconceituosa..."
Engraçado, ergue-se a bandeira da tradição cultural para justificar fatos graves como crianças se ferindo e correndo risco de morte. O prezado Pedro esquece que nem sempre a decisão majoritária, e por assim dizer supostamente democrática, é dona da verdade (e lembremos que não se sabe se este é o caso de Cruz das Almas, já que nunca se realizou um plebiscito na cidade sobre o assunto). Além do mais, é princípio democrático que o desejo da maioria não elimine os direitos da minoria, sobretudo, quando falamos de direito à vida.
O perigo em validar atrocidades em nome da cultura é desprezar que acima dela existem os direitos humanos, que se referem à condição existencial primeira do homem, antes mesmo de sua formação cultural subsequente. O capricho cultural não pode irresponsavelmente aniquilar as premissas de liberdade, integridade moral, psíquica e física.
Infeliz não é minha matéria, infeliz é uma cultura querer se impor em detrimento da vida e do patrimônio público da cidade, onde a maioria da população e também visitantes não estão nas ruas soltando espadas mas sim em casa tentando se esconder delas. Infeliz é o argumento de que "à guerra vai quem quer", enquanto testemunha-se espadas que atingem inocentes, inclusive adentrando as residências.
Infeliz também é chamar de tendenciosa e preconceituosa uma reportagem que relatou fatos e não opiniões. Como não afirmar que a guerra quebrou barreiras jurídicas, administrativas e de bom senso, quando se testemunhou espadeiros "brincarem" em áreas proibidas pela prefeitura, perto de postos de gasolina, uma proibição que nem sequer podia existir, dado que ela lá existe pelo Código Penal. Cadê o bom senso em pais estimular seus filhos a soltar espadas, podendo se ferir gravemente? Cadê o bom senso em soltar espadas debaixo de carros, em postos de gasolina, em casas?
Se isso tudo pode se aceitar, tolerar e justificar em nome da cultura, o quê não se poderá então? Uma cultura sem limites como essa não pode ser nada mais que uma cultura tola, burra e cruel.
Adendo: Em reposta ao comentário da leitora Magali, é preciso esclarecer que este blogueiro não condena a priori a cultura da guerra de espadas, mas sim os argumentos de que por ser uma manifestação cultural estaria a guerra de imediato isenta de limites, mesmo em detrimento de direitos maiores do que a liberdade das expressões culturais. Concordo com a prezada leitora quando pontua a necessidade de se conscientizar a população para o respeito ao direito de ir e vir da população cruzalmense. Reafirmo, pois, a urgência de se estabelecer um plebiscito para que o povo daquela cidade decida sobre assunto tão polêmico e que as autoridades não se furtem da responsabilidade de punir criminosos que, em nome da cultura, põem em risco a integridade física de seus concidadãos.
foto: Eduardo Matins (Agência A Tarde)