segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Um dia em Novos Alagados


Novos Alagados vive quase um novo momento. Quase porque as palafitas há pelo menos 20 anos não configuram mais sobre as águas um cenário que, embora imprimisse nas fotos uma paisagem romântica, simbolizou para o mundo miséria e condições subumanas. Poucas palafitas resistem agora ao tempo sobre terra firme e são inconfundíveis, não tergiversam: Novos Alagados quase venceu a pobreza.

"A fé não pode perder", disse o jovem Ivan (foto abaixo), 24 anos. Guerreira a crença do povo de Novos Alagados, uma comunidade que surgiu com o nome de Beira Mangue nos anos 70, depois que muita gente do interior veio para a capital a procura de emprego, atraída pela instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari. Mas só não se sabe fé em quê, questionou lá em meados dos anos 80 o compositor Herbert Vianna na canção "Alagados". A arte de viver da fé fez a comunidade conquistar um pedaço de chão e deixar para as cicatrizes o passado trágico de se equilibrar em pontes e casebres de madeira podre, a alguns palmos acima da água fétida.

Bárbara (foto acima) nasceu e cresceu equilibrista. Continua no seu velho barraco, o mesmo que antes se sobressaltava por estacas da superfície escura da enseada suburbana. Hoje pisa firme, sem medo de encontrar base segura. Faz a cabeça dos vizinhos, por R$ 10, com tranças descoladas. "Meu sonho é montar um salão de beleza", conta entusiasmada. O salão de Bárbara ia ser legal, com rede de esgoto, instalação elétrica adequada, alvenaria, tudo que está em falta na sua casa e em de outros moradores. Uma amiga dela comentou: "bonito que, ainda sim, ela sonha".

Sonhos submersos, de Novos Alagados, que poucos estão se importando. "O que tem lá?", perguntou-se com resposta pré-idealizada. Bem, tem uma vista maravilhosa, têm crianças, e tem a alegria de Isodélia também. É, respondendo, ali não tem quase nada, e, ao mesmo tempo, tem tudo. A história deve sempre emergir para Novos Alagados. Para Isodélia, Rosenilda, Jerrie, Bitonho, Vera Lazarotto, Maria José da Conceição, Odete, Dona Maria, Benilton, Rogério, Ivan, Bárbara... Tem vida em Novos Alagados, para além das fotos.



Fotos: George Brito e Rafaela Rodomack




Um comentário:

vanessa disse...

Taba e Rafinha, o texto de vcs está muito bom. Conhecer os Novos Alagados foi uma experiência ímpar. A alegria daquela gente me surpreendeu muito. Uma gente equilibrista mesmo, cheia de fé na vida. E como diria Jõao Bosco:
"A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar..."
bjs