segunda-feira, 24 de março de 2008

"A criatividade do brasileiro é mal administrada"

Muito antes deste novo movimento de brasileiros cada vez mais apostarem a sorte no mercado financeiro, o administrador de empresas Marcelo Araripe Dantas, 25, já lançava suas primeiras fichas no mundo especulativo. Com apenas 15 anos, ficou na terceira colocação no ranking simulado de apostadores da FolhaInvest. Não é à toa que até hoje é um grande estudioso do mercado de ações e sonha em ser um grande empreendedor, atuando no setor de fundos de investimento privado.

Funcionário hoje de uma empresa multinacional, Marcelo Dantas é o primeiro convidado a participar do quadro “Jovem pensa o Brasil de amanhã”, que estréia hoje no Nota Livre. A cada semana, um jovem falará de como pensa o País, sobre seu contexto socioeconômico e cultural, e de como se vê para a construção de um projeto nacional. Serão entrevistados jovens de todos as classes sociais, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais a menos politizados, e por aí vai.

Nesta entrevista, Marcelo Dantas frisou a importância do Brasil ampliar seus investimentos em setores mais estratégicos, como ciência e tecnologia, para deixar de depender tanto de sua natureza agrícola. Defensor de um mercado mais autônomo e robusto, o administrador se baseia no pensamento do prêmio Nobel de Economia John Nash, para mostrar como o incentivo ao empreendorismo pode promover desenvolvimento em todas as frentes.

Nota LivreO Brasil sempre foi visto como o país do futuro, ficando sempre na promessa. Agora, neste novo contexto econômico, muitos acreditam que chegou o momento do País. Como você percebe, como jovem, as perspectivas do Brasil, sendo parte de um processo de desenvolvimento?

Marcelo Araripe - Inicialmente, acredito que nós somos pessoas de sorte. Por a gente ter a idade certa no momento certo. Acho que o Brasil está vivendo um momento atípico daquilo que eu conheço de história e vivi de história, nos meus 25 anos. Acho que o Brasil tem a perspectiva de se transformar na terceira economia mundial nos próximos 20 anos. Mas para o País chegar lá é preciso, primeiro, combater a corrupção. Depois, é preciso se fazer a reforma tributária, que já devia ter sido feita há muito tempo.

NLComo você vê as medidas tomadas nesta reforma tributária?

MA – Foram duas. A do Imposto sobre Operação Financeira (IOF) e a da cobertura cambial, que, na minha opinião, eles não deviam nem ter dito que desfizeram isto, porque foi uma medida estúpida tomada em 2006 que dificultou os exportadores. Já a questão do IOF, para querer controlar o fluxo de dólar para o Brasil, eu também não concordo, porque puniu os investidores estrangeiros, apesar de ajudar a Bolsa -cobrar só para fundo de renda fixa estimula a ida de capital para o mercado financeiro. Mas receio que vá afugentar os investidores estrangeiros e não é isso que vai melhorar a questão da desvalorização do dólar, uma tendência mundial. Então, o Brasil não consegue hoje enxergar a longo prazo que reduzindo determinadas receitas para as empresas brasileiras, ele vai conseguir a maior legalização destas empresas.

NLMas há uma contradição. Você desonera as empresas para investir, o que gera uma saúde financeira, gera maior formalização do emprego. Em contrapartida, diminui-se a qualidade das condições de trabalho, quando se reduz os direitos trabalhistas. Você acha que o Estado intervém muito na economia ainda? Você segue a linha de Adam Smith?

MA – Bom, como trabalhador, acho ótima a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Mas acho que o Estado intervém muito na economia ainda. No entanto, eu sou mais do lado de John Nash. Que é a mistura. Vejo poucas pessoas comentarem dele ainda. Na verdade, tem que haver o pensamento individual e no grupo, não tal como o livre comércio que Adam Smith pensa, que cada um fazendo o que é melhor para si o mercado se auto-regula. Inclusive, estou lendo atualmente o livro “A Era da Turbulência”, de Alan Greenspan (ex-presidente do Banco Central Americano), no qual ele defende em alguns momentos Adam Smith. Só que eu acho que a tendência é outra... Hoje, se você parar para analisar, toda a Internet é baseada na teoria de John Nash (teoria do equilíbrio), ligada à idéia da cooperação de informação. Você faz o que é melhor para você e para o grupo. Youtube, os blogs, tudo segue esta mesma linha. Tem haver com a globalização. Sou a favor de uma menor intervenção do Estado, principalmente porque a quantidade de encargos pagos pelos empresários brasileiros é altíssima e não condiz com a realidade de nenhum país emergente. Temos que valorizar os empregados, mas não desta forma, porque onera muito as empresas.

NLNeste contexto do empresariado brasileiro, você acha que o Brasil concentrar seu poder econômico em commodities (matéria-prima com cotação no mercado internacional) é ruim?

MA – Não. Não é que seja ruim. O Brasil hoje é um país agrícola, e a maioria dos commodities é agrícola, então ele tem sim que aproveitar. O que me preocupa é o Brasil enxergar isso como principal fonte de riqueza, e investir pouco no lado tecnológico. Hoje você vê cientistas brasileiras fazendo grandes descobertas, mas ainda são muito pontuais. Você não vê investimento de empresas fortes no Brasil, desenvolvendo tecnologia para ser exportada. E, como foi nos EUA, China e Índia, ter tecnologia de ponta é fundamental para o crescimento econômico. O Brasil precisa diversificar seus investimentos.

NLMuito se fala que o jovem brasileiro de hoje é despolitizado. Numa entrevista recente, Zé Márcio Camargo, economista que formulou o Bolsa Família, afirmou que o Brasil está num momento de se desligar da herança política da ditadura, e passar a ter novas lideranças políticas, que não sejam filhos daquele momento histórico, como Lula e José Serra. O que você pensa sobre isso e como seria um líder com um novo pensamento?

MA – Deve ter isso interessante essa reportagem. Nunca tinha pensado nesse aspecto. Mas acredito que, primeiro, nossa juventude é despolitizada porque nossos jovens estão um pouco cansados. A sensação é essa, de cansaço exacerbado com tanta corrupção. A gente hoje, com o avanço da informação, quer gastar tempo com que é produtivo, e achamos que gastar tempo com política não dá futuro, porque não vai mudar. Então pensamos: vamos estudar, trabalhar e nos dedicar ao nosso trabalho, fazer a nossa parte. O governo que se auto-regule, não sei, é essa minha sensação. Em relação a presidentes para cima, faço um link com o que acabei de falar sobre tecnologia. Essa questão de estar atrelado às commodities agrícolas tem um pouco haver com um pensamento de colônia. Mas a diferença que eu vejo em Lula hoje é que ele é um líder. Não tem muito conhecimento, não é expert em nada, e por isso acredita que tudo é possível, não se deixando convencer por teorias que dizem que certas coisas não são possíveis. Ele tem pulso e consegue convencer seus subordinados, estimulando-os a pensarem. Essa é a essência da liderança, fazer seus subordinados pensar diferente. Mas ainda falta ao Brasil exportar, além de produtos agrícolas, pessoas, capital intelectual e tecnologia de ponta. Esse deveria ser o caminho do Brasil.

NL
Como você se vê para construção desse caminho? Atuando em que setor, por exemplo?

MA – O setor, inclusive por isso votei em Cristovam Buarque em 2006, é a educação. O brasileiro hoje é carente em educação. Nossos pais são nossos professores, não naturalmente nossos pais. Para os jovens brasileiros serem diferenciados é preciso haver essa visão para o futuro que está nascendo agora, para as crianças de 7 a 14 anos. Fazer com que eles comecem a pensar diferente. Tem que haver referências fortes, para levar a educação em forma de atacado, para ser mais rápido. Não adiantam atitudes e manobras de pouco em pouco. Porque quando você muda as estruturas educacionais você só chega ao resultado em cinco anos, então requer investimentos a longo prazo. O Brasil ainda não investe porque os políticos de hoje ainda pensam na próxima eleição, e não têm tempo hábil para fazer ver esses resultados. Mesmo assim, sinto que algo está mudando, não pelo Governo. O terceiro setor hoje, de forma socialmente responsável, investe em educação, pensando na continuidade dos negócios no futuro, buscando jovens que pensem diferente. As empresas brasileiras investem em educação visando seus negócios, porque senão elas vão ter que importar pessoas, comprar capital intelectual, e isso se torna muito mais caro. As empresas apostam em empreendedorismo.

NLFoi bom que você desenvolveu o tema educação. Mas queria saber como você se vê dentro da construção de um projeto para o País.

MA – Hoje, enxergo que quero ter uma influência política forte. Tenho certeza que daqui a alguns anos da minha vida, vou ter a necessidade de mudar. Quando eu penso isso... Penso na questão da educação, a questão da visão, da forma do brasileiro pensar. Hoje me enxergo com excelentes oportunidades profissionais. Quero ser um grande empresário e aproveitar as grandes oportunidades que o Brasil tem e não consegue enxergar. Eu me espelho em alguns brasileiros, dos quais o mais falado é Eike Batista, ele é altamente visionário, não só porque é o homem mais rico do Brasil, mas porque ele tem o “culhão” de apostar em algo que ninguém enxerga. Como empresário, investiria em cultura, em educação e tecnologia.

NLPara terminar, como Marcelo vê Marcelo?

MA – Numa previsão, aos 35, 40 anos, me vejo empresário do meu próprio negócio. Tenho paixão pelo mercado financeiro, queria ter um negócio relacionado a isso. Minha idéia no futuro é aproveitar grandes idéias especulativas e poder investir em pequenas empresas, ajudá-las a se desenvolverem e crescer com elas. Acho que o brasileiro tem um poder de criação incrível. Essa criatividade hoje é mal administrada e mal investida. Aos 40 anos, quero ter uma empresa do setor private ecurity ­(segmento de fundos de investimentos privado), para poder investir em pequenas empresas com alto poder de criação e inovação e ajudar o Brasil mais a frente, não só em termos de economia, mas também de visão de futuro.

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